Um guia para estratégias metacognitivas na sala de aula – Parte 2
ENSINAR A APRENDER
A metacognição desempenha um papel crítico em relação ao aprendizado bem-sucedido, fato que tem sido mostrado, inclusive, em pesquisas. Ser bom aprendiz não é algo inato, um dom que uns nascem já tendo e outros não. Ao contrário, o bom aprendiz é formado de diversas maneiras. Como professor você já sabe disso: ensinar é certamente uma das melhores formas de aprender, talvez a melhor. Por isso, ensinar o aluno a aprender da melhor maneira possível é uma tarefa indispensável.
Os professores podem ensinar estratégias metacognitivas a seus alunos na sala de aula, de forma a promover resultados educacionais mais positivos. Pensando nisso, neste artigo, vamos apresentar atividades a serem desenvolvidas com o objetivo de desenvolver a metacognição e ferramentas que vão ajudar seus alunos a identificarem o que está funcionando neste processo.

USE ESTRATÉGIAS EXPLÍCITAS
Definida uma tarefa, se além do que têm para fazer, os alunos também sabem como devem fazer, muitas frustrações podem ser evitadas. Se a eles forem ensinados não apenas o conteúdo, mas também as habilidades que precisam para realizar uma tarefa, a aprendizagem será mais significativa e prazerosa.
Para ajudar os alunos a perceberem como podem fazer melhor, o ensino metacognitivo procura tornar explícitos os processos de aprendizagem que até então eram vistos como implícitos. São desvendados aspectos até então compreendidos como coincidência ou, no máximo, como resultado da intuição, e não da capacidade do aluno de escolher a melhor estratégia para que possa alcançar bons resultados de aprendizagem.
No ensino de estratégias metacognitivas, diferentes atividades podem ser propostas com o objetivo de desenvolver estas capacidades: modelagem de habilidades cognitivas, auto-reflexão orientadora, atividades de suporte e avaliação.
A seguir cada uma destas atividades é abordada em mais detalhes.
1. MODELAGEM DE HABILIDADES METACOGNITIVAS
Na sala de aula os alunos, normalmente, enxergam seus professores como especialistas. Mas, de uma perspectiva metacognitiva, poderíamos considerar que você professor também é um aluno especialista, afinal ao mesmo tempo em que ensina, também aprende. Logo, ao modelar explicitamente para seus alunos como você usa suas habilidades de pensamento e suas estratégias de resolução de problemas, estará ensinando as melhores práticas que eles podem experimentar e adotar. Para ajudá-los no desenvolvimento destas habilidades você pode:
- Definir expectativas claras para os alunos e demonstrar as habilidades necessárias para concluir a atividade, inclusive usando exemplos.
- Usar recursos visuais, priorizando vídeos de qualidade, além material ilustrativo impresso ou online, para acomodar diferentes estilos de aprendizagem. Permitir que os alunos assistam aos vídeos mais de uma vez ou que usem os gráficos quantas vezes forem necessárias para concluírem uma tarefa com êxito.
- Dividir os problemas mais complexos em componentes menores. Assim você ajuda os alunos a se concentrarem, trabalhando uma etapa de cada vez, de forma a reduzir a carga cognitiva e a também a ansiedade.
- Oferecer aos alunos oportunidades de esclarecer suas ideias, para que possam expressá-las melhor e, ao mesmo tempo, compreender o conteúdo de forma mais profunda. E ao incorporar interações entre os alunos em seus planos de aula, você estará ajudando suas turmas a desenvolverem habilidades de comunicação.
- Compartilhar a forma como você raciocina, ou seja, o modelo mental envolvido na tomada de decisões, demonstrando quais habilidades de pensamento crítico você usa. Mostrando que também precisa raciocinar para resolver um problema, você desmistifica o conhecimento como algo mágico e facilita a reflexão sobre o processo de aprendizagem.
- Oferecer oportunidades aos alunos de tentarem novas tarefas usando suas habilidades recém-adquiridas. Ao mesmo tempo, fornecer feedback constante. Ao proporcionar estas práticas rotineiras, você os ajudará a ganhar confiança na análise das tarefas e na busca por estratégias de trabalho.
2. AUTO-REFLEXÃO ORIENTADORA
Ao trabalhar atividades de resolução de problemas, faça pausas para analisar junto com os alunos o processo de aprendizagem durante cada estágio. Incentive seus alunos a refletirem sobre o próprio aprendizado, enquanto trabalham a resolução dos problemas, para que possam desenvolver individualmente sua capacidade de autorregulação.
No quadro abaixo, listamos uma série de autoquestionamentos que os alunos podem se fazer para orientar sua própria reflexão.

Essas técnicas de autoquestionamento nas etapas de preparação, execução e avaliação incentivam os alunos a conhecerem as diferentes estratégias usadas enquanto aprendem novas habilidades.
3. ATIVIDADES DE SUPORTE (“ANDAIME”)
O professor vai adotar o conceito de “Scaffolding”, termo cuja tradução literal é “andaime”, mas que pode ser interpretada na educação somo “suporte”. Indica os diferentes níveis de assistência que o professor fornece no desenvolvimento de novas habilidades ou novos conteúdos, conforme sua complexidade e/ou dificuldade.
Usando a técnica de Scaffolding, inicialmente, o professor divide as tarefas complexas em partes menores, procura verbalizar os processos cognitivos, promovendo o trabalho em grupo e oferecendo sugestões. Posteriormente, quando os alunos mostram ter avançado na compreensão e autonomia no estudo e no aprendizado no conteúdo e/ou no desenvolvimento da atividade, os “andaimes” de suporte vão sendo retirados pouco a pouco, ou seja, a autonomia vai aumentando.
Assim, para apoiar os alunos no desenvolvimento de suas habilidades metacognitivas, o professor vai estruturar as experiências de aprendizagem de maneira a fornecer, inicialmente, um forte apoio instrucional, para depois retirá-lo gradualmente. Dessa forma estará sendo preenchida uma lacuna entre a capacidade do aluno e os objetivos de aprendizagem. É interessante notar que as atividades de suporte têm origem no conceito do nível de desenvolvimento potencial da Zona de Desenvolvimento Proximal, elaborado por Lev Vygotsky. O professor vai analisar as habilidades dos alunos de forma a ajudá-los na medida certa. A forma de abordar o conteúdo vai variar de acordo com o avanço da turma, que pode ser dividido em três níveis: iniciais, quando ainda têm quase nenhum domínio sobre o conteúdo; de desenvolvimento, quando já houve um certo avanço; e de domínio, quando a turma consegue trabalhar de forma mais independente.

A adoção de atividades “andaime” faz com que os alunos possam atingir níveis de aprendizagem cada vez maiores. Além disso, há maior equidade no processo, com mais inclusão, participação e independência.
4. AVALIAÇÃO
Um último e importante aspecto a considerar é a avaliação do desenvolvimento metacognitivo dos alunos, ou seja, verificar o grau de sucesso de suas estratégias metacognitivas. A avaliação é parte indissolúvel do processo de ensino/aprendizagem, mas é bastante difícil para os alunos medirem com precisão suas habilidades metacognitivas depois de concluírem alguma tarefa. Por isso, ensinar seus alunos a avaliar ativamente o êxito de suas estratégias durante as atividades tem de ser parte do processo. Para ajudar seus alunos a identificarem as estratégias que funcionaram, utilize duas atividades:
- 1. Promova um “momento de pensar em voz alta” – Periodicamente desacelere o processo de resolução de problemas para que os alunos possam trabalhar passo a passo em direção à solução de forma sistematizada. Peça a eles que verbalizem detalhes do problema que consideram importantes, quais foram decisões tomadas para a solução e a justificativa para elas em cada etapa. Dessa forma você estará aumentando a compreensão do problema e promoverá maior foco nos elementos-chave. Os alunos vão esclarecer suas ideias, melhorando suas habilidades de raciocínio e pensamento.
- 2. Autoavaliação – Promova uma autoavaliação do desenvolvimento metacognitivo da turma por escrito. Faça uma lista de questões sobre as estratégias usadas e os resultados obtidos. Para facilitar/incentivar a participação, desenvolva avaliações com escalas Likert, ou seja, que meçam o nível de concordância do aluno com uma determinada afirmação, mediante alternativas como “concordo muito”, “concordo”, “concordo pouco” ou “não concordo”. Você também pode utilizar emojis (“carinhas”) que representem um determinado sentimento e sua intensidade. Desenvolva, ainda, pontuações para as respostas, de maneira que ao serem somadas, permitam a você e aos alunos uma rápida percepção dos resultados obtidos.
As estratégias mostradas até aqui são projetadas para ensinar aos alunos como se preparar e estudar melhor para promover maior independência, prazer na aprendizagem e melhores resultados.
- Este post foi inspirado no artigo “A guide to metacognitive strategies in the classroom”, publicado no site da ClickView, Austrália, de autoria de Chris Woods.
- Se você não leu a PARTE 1 deste post, O QUE É METACOGNIÇÃO E COMO ELA INFLUENCIA A APRENDIZAGEM acesse clicando aqui. Leia também a PARTE 3 – COMO MOTIVAR OS ALUNOS A UTILIZAREM ESTRATÉGIAS METACOGNITIVAS clicando aqui.
Para você, as estratégias mostradas aqui podem ser uteis? Ou é melhor seguir ensinando de forma tradicional? Será possível sistematizar o próprio processo de aprendizagem? Deixe aqui sua opinião.
2 comentários sobre “ENSINANDO ESTRATÉGIAS METACOGNITIVAS AOS SEUS ALUNOS”