
Neste artigo são abordados:
- O valor de documentários e outros gêneros de vídeos educacionais para a Educação;
- Fundamentos de sua utilização;
- Estratégias de uso.
O PIONEIRO DA EDUCAÇÃO AUDIOVISUAL
Desde os primórdios do cinema, a utilização de filmes educativos como apoio ao processo de ensino/aprendizagem vem sendo pesquisada, validada e implementada. Um dos pioneiros foi Edgar Dale, especialista em educação audiovisual, que entendia a aprendizagem como um processo cuja efetividade dependia da experiência vivenciada pelo aprendiz e, em consequência, das metodologias de ensino adotadas.
Em seu livro “Audio-Visual Methods in Teaching” (1ª ed – 1946), Dale analisou diferentes modalidades/canais de transmissão de informações e propôs o Cone da Experiência (Figura 01) em que relacionou os materiais audiovisuais e o processo de aprendizagem.

O Cone da Experiência de Edgar Dale – Fonte: Braathen, 2017.
Dale modelou a abordagem do Cone da Experiência em níveis de abstração:
- Palavras (mais abstratas) no topo do cone;
- Experiências da vida real (mais concretas) na base do cone.
Nesta modelagem classificou os recursos didáticos em três níveis, Symbolic, Iconic e Enactive, como detalhado abaixo:

O autor considera que, embora as melhores experiências de aprendizagem sejam aquelas classificadas como Enactive, na maior parte das situações (e dos conteúdos) não é possível abordar o conteúdo pela experiência direta. Dessa forma, os recursos classificados como Iconic, (a experiência visual e auditiva), especialmente no caso dos filmes e mais ainda a televisão, seriam melhores que as leituras repetidas, textos no quadro e exposições verbais, recursos que ele classifica como Symbolic.
Vale destacar que esta classificação não resultou de um estudo quantitativo e sim de uma análise conceitual. Apesar disso, em um fenômeno de apropriação indevida de informação, ao longo dos anos muitos autores inseriram e adaptaram dados numéricos ao estudo de Edgar Dale. De forma arbitrária, atribuíram ao Cone da Experiência percentuais de retenção de informação conforme o tipo de metodologia de ensino que nunca foram propostos pelo pesquisador.
DO SUPER-8 À INTERNET
A projeção de filmes em escolas de todos os níveis começou a ser feita por volta dos anos 1950, inclusive no Brasil. Inicialmente, poucas escolas contavam com salas de projeção de filmes em película, geralmente usando projetores de oito milímetros, recurso que acabava sendo usado de forma esporádica com cada turma, inclusive porque a disponibilidade de obras era pequena. A partir dos anos 1990, um crescente número de escolas passou a contar com salas equipadas com projetores de vídeo, nos quais era possível a exibição de maior variedade obras, inicialmente contidas em fitas de vídeo e, depois, em DVDs.
Nos tempos atuais, as salas de aula passaram a contar com projetores multimídia ou televisores (smartv) de tela grande. Estes equipamentos, ao serem conectados à internet permitem o acesso a uma quantidade gigantesca de conteúdos em vídeo.
Este enorme volume de conteúdos, entretanto, não necessariamente é vantajoso. Aspectos relacionados ao gênero audiovisual, qualidade artística, narrativa e técnica e à confiabilidade das fontes, precisam ser levados em conta na seleção das obras a serem exibidas para os estudantes. Por isso, cabe aqui defender como gêneros audiovisuais prioritários para uso na educação básica os documentários e os vídeos educativos, assim como a necessidade de que a escolha da obra a ser usada se baseie em critérios de qualidade e confiabilidade.
O VALOR DOS VÍDEOS PARA ATIVIDADES NA SALA DE AULA

Na sala de aula, a utilização de um ou mais documentários, integrados estrategicamente à abordagem planejada pelo professor, serve como base para discussão, interpretação e/ou estudo posterior do conteúdo proposto. Podem ser escolhidos tanto filmes que abordam diretamente o conteúdo estudado, quanto aqueles com uma abordagem indireta, ou seja, que mostram temas relacionados a este conteúdo ou o colocam o contexto.
Associados à abordagem do professor, bons documentários e vídeos educativos:
- Dão vida a um conteúdo, motivando os alunos para o tema;
- Apresentam abordagens e narrativas envolventes;
- Oferecem alto potencial de retenção da atenção dos alunos, engajando-os ao conteúdo;
- O engajamento durante exibições na sala de aula ajuda a promover raciocínio de alto nível e discussões do conteúdo entre os alunos, facilitando o aprofundamento da abordagem e, consequentemente, da aprendizagem.
A GRANDE VANTAGEM DO VÍDEO ONLINE EM ATIVIDADES EXTRACLASSE
Uma grande vantagem dos vídeos disponibilizados online é a facilidade de seu uso em atividades extraclasse. Além disso, as telas de celulares, tablets ou computadores podem ser grandes aliadas da aprendizagem, devido ao envolvimento proporcionado pelos vídeos, pois:
PROMOVEM ENGAJAMENTO – Documentários de qualidade têm grande utilidade para o processo educacional, pois, ao mesmo tempo, envolvem e instruem por meio da narrativa. Ao contarem bem uma boa história, promovem o engajamento do público.
AJUDAM A PROMOVER APRENDIZAGEM ATIVA – Os documentários e outros gêneros com finalidades educativas, quando disponibilizados online, tornam a experiência de aprendizagem mais ativa, por meio do protagonismo (melhora as condições para a discussão e entendimento do conteúdo), da autonomia (uso do próprio dispositivo), adaptação ao ritmo de cada pessoa (agenda individual) e por viabilizar a iniciativa do aluno (de assistir individualmente, comentar e/ou recomendar).
VANTAGENS PARA A ROTINA DO PROFESSOR
A inserção de documentários oferece aos professores quatro vantagens para a gestão do seu trabalho cotidiano com recursos didáticos:

Vale destacar aqui que a referência a maior facilidade de ver um vídeo do que ler um texto, não tem por propósito reduzir a atividade de leitura. Ao contrário, a obra audiovisual terá como efeito a ampliação e/ou o aprofundamento do conteúdo lido, como atividade que se integra e potencializa a leitura.
Além disso, combinar a facilidade de convencimento com o alto potencial de engajamento dos vídeos é algo valioso para as atividades desenvolvidas pelos alunos fora da sala de aula.
CONCLUSÃO
O uso dos documentários como ferramenta de apoio à aprendizagem é um tema amplo e que merece ser aprofundado em sua análise. As melhores obras audiovisuais, sobretudo documentários e vídeos de formação e educação, nos levam a novos lugares, nos fazem ver novas coisas e com novos olhos, nos permitem pensar sobre as coisas do mundo de novas maneiras, de um jeito que sequer percebemos. Sua adoção de forma cotidiana em todos os níveis da educação nos países desenvolvidos da Europa e na América do Norte mostra que as escolas brasileiras podem e devem compreender e explorar melhor este recurso, como importante ferramenta de apoio à aprendizagem.
BIBLIOGRAFIA
Docummentary as a teaching tool – Adam Judge (https://www.debeaumont.org/news/2017/the-documentary-as-a-teaching-tool/)
BERGMANN, J.; SAMS, A. Sala de aula invertida – uma metodologia ativa de aprendizagem. 1. ed. Rio de Janeiro. 2016.
Entwistle, N., “Motivational factors in Students Aproaches to learning,”in R. R. Schmeck. Ed., Learning Strategies and Learning Styles, Plenum Press, New York. Chap. 2 (1988).
BRAATHEN, Per Christian. “Metodologias de Aprendizagem Ativa”. Viçosa, MG, CPT, 2017.